domingo, 26 de setembro de 2010

Way.



Sentia o corpo gelado. Melhor dizendo, estava tão gelado que não o sentia. A única parte quente em mim, era o rasto das lágrimas que derretiam o gelo na minha cara. O meu coração estava mais uma vez rasgado. Mais uma vez, os pedaços estavam soltos, e mais uma vez, eu viva na ânsia da dúvida, sobre se alguma vez mais se voltariam a tocar. Tu não ias recolocar os pedaços, e eu sinceramente, não me sinto capaz de deixar que mais ninguém o faça. Há uma divida para com o meu coração que só tu podes pagar. Se não o fizeres, os pedaços continuarão soltos, manter-se-à o vazio. E mesmo assim, não obstante, sabia que se chegasse a mão ao peito, regressaria aos meus olhos invadida de sangue. Porque é assim, que anda a minha alma desde que partiste. Ensaguenta-se todos os dias, e enfraquece. Porque me acontece isto? Ultimamente começo a irritar-me perante a fraqueza que me anda a tomar. Estou farta de ser o objecto que mata a sede à dor, estou exausta e cansada de dar voltas à cabeça na tentativa de perceber como dar a volta ao coração. Parei diante de todas aquelas ervas, e senti que tal como elas, eu nada importava para quem passa. Olhei em frente. O sol estava a pôr-se, e esse momento entristece-me. Faz-me sentir, que falta ali alguém do meu lado. E a única pessoa que pode ocupar todos os espaços vazios que me assolam, estava a partir junto com o azul dos olhos, o azul do céu, que dava lugar ao laranja e ao rosa, naquilo que podia ser uma tela acabada de pintar. Observei com atenção a linha do caminho de ferro. Gostava mesmo daquele sítio. Transmitia-me tranquilidade. Igualdade de sentimentos, para com o vazio que ali me rodeia. Tanta coisa, tão cheio, e tão vazio. Sem nenhuma alma para o habitar. Será que se seguir a linha, ela me leva a algum lugar? Irónico. Acho que ela passa perto da tua casa. Sobrepus um pé, sobre uma das tábuas de madeira que constituia aquela linha sem fim, rumo talvez, ao fim, quem sabe. Um pé diante do outro. Pensei seguir em direcção ao horizonte, em direcção ao sol, com o coração a servir de bússula. Ir, ir sem pensar. Mas não. Faltou-me coragem. Esitei. Mais uma vez tive medo. Medo de encontrar dois caminhos, e não saber por qual ir. Medo de fazer a escolha errada. Medo que mais uma vez, um passo em falso me estrague a vida.

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