Às vezes sinto-me como se fosse um extra-terrestre. Sinto-me a parte de tudo. Parece que sou tão forte, e tão fraca. Que passei por tanto, que passei por tão pouco. Olho em volta, e sei que estão lá os mesmos de sempre. Sei que estão lá, sempre para mim. Mas muitas vezes também, penso que alguns, bem, têm comigo aquilo que tenho com eles. Vejo que uns me amam sem eu os amar, e que outros me odeiam sem eu saber sequer o que isso é. Sinto-me uma ignorante, um peão jogado, que no fundo, nada entende de xadrez. Às vezes sinto-me tão idiota e usada, que atribuo a mim mesma, o mais alto estatuto de desilusão. Aplico um bocadinho de indecisão. Deixo uma lágrima, um sorriso. Atribuo mais um abraço, daqueles que tanto gosto de dar. Dou mais de mim, sempre e a quem posso, porque é isso que me faz feliz. É só juntar, uma cabeça baralhada, um piano, uma guitarra, papel e caneta, um computador e um blogue, e sou mesmo eu. Às vezes nem sei se só isto, ou se sou mais. Não percebo o que vai em volta, e não sei se sou tão forte quanto a razão me diz. No entanto, quando olho para trás, vejo a força. Lutei contra tudo e todos. Ouvi o que muitos quiseram dizer e virei as costas. Deixei que me magoassem para não ser eu a fazê-lo. Dei a mão, a quem ma feriu. Dei o coração, a quem mo rasgou. Dei a cara por quem não merecia. Chorei vezes sem conta, por culpa de tantos, que me magoaram, e dos quais nunca tive minima sede vingança. Sou realmente complicada. Complicada de mais para que possa assimilar toda a informação que percorre a minha cabeça. De mim, pouco ou nada sei. Dos outros menos ainda. Sei que vivo com medo, só. Sei que vivo com medo, de fazer mal. Sei que vivo com medo de cair. Sei que sempre vivi para me levantar de novo. Sei que me reergo, sempre que caio. Sei que sempre fui feita de fibra, suficiente para ajudar a levantar-me a mim e aos outros. Sei que sempre amei sentir-me uma heroína. Sei que é para isso que vivo, para ser voluntária. Para fazer o melhor dos voluntariados, aquele em que se pode dar sorrisos, sem querer nada em troca. Sempre foi a minha paixão, ser parva a 100%, apenas para ver a Margarida sorrir. Sei que sempre me soube bem, ver o João muito calado, de repente dizer a parvoíce mais descabida de todas, ouvir a sua melhor gargalhada, ouvi-lo dizer-me "és louca", e ver aqueles dentes todos ali, a sorrirem para mim. Sinto que é disto que vivo. É assim que sou feliz. Uma consumidora, que no fundo, vive do seu consumo pelos outros. Os outros que consomem a minha parvoíce, e que me pagam, na melhor moeda. Aquela que compra tudo na vida. E é este o único ponto assente. Sou tão feliz a vê-los felizes. Juro que sou. É assim que me orgulho de ser, e não penso mudar um milimetro. Mas tenho medo. Medo de como sempre não saber fazer-me feliz a mim, e de não ter perto de mim, alguém que procure fazer comigo aquilo que eu faço com os outros. No fundo acho que não sei guiar-me. Ando perdida, à espera que a idade, traga maturidade suficiente para perceber o que realmente me pode fazer feliz. Mas não consigo. Parece que sempre que procuro a felicidade, ela muda de sítio, para que não lhe possa tocar. Vou seguir em frente. Não quero iludir-me, mas vou mais uma vez, arriscar pensar, que vai ser desta vez. Sempre fui de lutas, não vou deixar de o ser agora. Se o fechei o campo de batalha há mais de um ano, naquela que foi a minha ultima grande derrota, agora vou abri-lo de novo. Venham aqueles que vierem. Há que lutar, sempre. Lutar com dignidade. Lutar com respeito, por aquilo que mereço. Não é preciso propriamente, andar aos murros para se ser feliz. Talvez um dia destes, eu aprenda, a sorrir para mim. A espalhar um sorriso só meu, só para mim. Até agora, e só, de facto sei espalhá-lo nos outros. Sei contagiar todos com a minha aparente felicidade, sei deixá-la marcada noutros rostos. Mas será que isso chega?
A dor da dúvida. Perante a vida, perante o que se sucede. A dor pára a vida. Mas o medo da dor pára muito mais. É-me profundamente visivel quando olho para dentro. No fundo, sinto-me culpada pela minha própria fraqueza. De facto, hoje é um dia diferente. O dia em que fiz a maior das promessas a mim mesma.
E medo aqui, não mais haverá.
Se calhar, não sei mesmo nada de xadrez.


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