Atendi o telefone, mais uma vez. "Sim gente, estou a ir". Corria pela casa como se fosse uma louca. "Patrícia Isabel, o que andas tu a fazer?". Já a minha mãe começava com as suas lamúrias irritantes. Na verdade, queria lá saber. Estava muito ocupada. Saltei todos os degraus da escada a passos largos, e encaminhei-me para a sala. Telemóvel, dinheiro. Mala não, só serve para me empatar. Não faltava nada, não. Estava a arranjar-me há algum tempo, mas agora sim, estava tudo. Abri rapidamente a porta. "Até logo mãe". Transpus-me para fora de casa, mais rápido do que a própria velocidade me permitia, de forma a que os interrogatórios da senhora dona Margarida não começassem (mães, --'). "Boa noite". Cumprimentei os vizinhos, e tentei parecer e estar aparentemente normal, agindo naturalmente, como sempre era hábito. Mas não. O meu coração acelerado, e o sangue que circulava a uma velocidade louca, sabiam e denunciavam nas minhas empolgadas veias, que realmente, estava mais anciosa do que o normal. Uma ansiedade que na verdade, nos últimos dias se tornava usual. O vento fresco puxava-me o cabelo para trás, e fazia-me sentir mais calma. Uma certa brisa, sempre me fora daquelas coisas que me faz pensar, no quanto a natureza pode ser perfeita nalgumas sensações que nos proporciona. O telefone tocou. Descia apressadamente a rua, com algumas dificuldades em tirá-lo do bolso. Atendi. Gaguejava, irritada com o facto de não conseguir andar mais rápido do que fazia sem ir a correr. "Sim, estou a ir para baixo". Torcia os pés a cada 5 passos com tamanha pressa com que me deslocava, e o caminho parecia cada vez mais longo diante dos meus já cansados membros inferiores. Cheguei junto de um muro. Pensei sentar-me, respirar fundo. Bem estava a precisar. Sentia-me tonta. Pensei que ia ter uma crise de ansiedade, mas não. Consegui acalmar-me. Abrandei o passo. Respirei fundo, e tentei não me lembrar de que ia vê-lo. O cheiro doce do meu perfume, fazia-me companhia. Podia sentir isso facilmente, por todas as carradas que tinha despejado em cima de mim, o perfume que o vento fresco retirava facilmente das malhas do meu vestido, dos poros da minha pele, devolvendo de novo esse aroma ao meu corpo, acessível às minhas propriedades olfactivas. Não era claro, tão doce quanto o dele. Não, nunca tão doce, quanto aquela fragrância que não esqueço, que o meu nariz alojou num canto da minha cabeça, para que eu não possa esquecê-la nunca, reconhecendo-a em qualquer parte. O céu estrelado dava-me uma certa força, calma e confiança. Podia ver todas as estrelas em cima de mim, pequena e ridícula, comparada aos astros que iluminavam aquela rua escura, e a ele, que ia ver a seguir. Observei as unhas. Dei um jeito no cabelo, e cheirei os braços, para ter uma melhor noção, do aroma que ele ia sentir quando chegasse perto de mim. Depois de ter a certeza de que estava tudo em ordem, dei por mim quase no local combinado. E já eram horas. Nunca fora muito pontual. Bem, adiante. Que se lixe. Estava quase, quase lá. Sim, já estava a vê-los. E ali estava ele, a 20 metros de mim. Um passo, outro, outro devagar. A mesma figura, os mesmos olhos, o mesmo sorriso, o mesmo cabelo. Tentei medir a pulsação. Ok, que susto. Mal toquei no pulso, mas vi logo que o meu coração parecia uma metralhadora a disparar munição em todas as direcções. Conti a respiração. Tentei verter alguma da ansiedade em cada vez que expirava, e tentava inspirar todo o ar que conseguia, de forma que os meus pulmões me ajudassem, a fazer o coração palpitar sem fazer tanto barulho, e a deixar o sangue a pulsar com uma força não visível nas minhas empolgadas veias. Aproximei-me. Era a vez de lhe falar a ele. Debruçou-se, e colocou a mão no meu ombro. Toquei lhe no braço, e senti-me ridícula, por ser tão pequena mediante a descrepância entre os meus modestos 164 cm, e os seus cerca de 180 e tal. Os seus lábios macios tocaram-me a pele, e senti que tinha caído nas nuvens. Parecia estar a cumprimentar o algodão, mas algodão doce. Aquele aroma continuava a exercer a mesma força em mim. Deixava-me quase drogada, quase esquecida de mim, quase apaixonada. Um sorriso. Retribui espontâneamente, mais espontâneamente do que devia, de forma mais natural e sincera do que devia tê-lo feito. Mas acho que ele até já me faz perder o controlo dos gestos. Eu sorria demasiadamente sincera. Não havia efemeridade. Agora estava calma. Estava esquecida da ansiedade que antes me tomava, e sentia-me mais completa que a própria saciedade. Trocámos os habituais sorrisos tímidos, e eu como sempre, rejeitei qualquer olhar, sem grande jeito para disfarces. Agi sem pensar, como o coração sentia, não como a cabeça queria pensar. Passei aquela noite, como todas, tentando aproveitar a sua presença ao máximo, tocar a sua pele ao máximo, sorrir-lhe ao máximo, vê-lo ao máximo, senti-lo ao máximo, satisfazendo o que realmente queria, sem o fazer propositadamente. Acho que vou ficar sem maxilares de tanto lhe sorrir. Mas não me importo. É sorrir mesmo de vontade. Mesmo que não deva. Talvez agora, ele guie as minhas atitudes.
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