Correram pela estrada fora, sem saber onde iriam parar. O sol ao fundo, escondia-se. Dizia-lhe adeus, até amanhã. Acenavam como uns loucos, bêbados de felicidade emotiva, correndo sem rumo. Seguiam caminho, independentes do resto, apenas ligados à terra, pelas suas mãos juntas, num nó fechado. O suor fazia-lhe escorregar os dedos, presos num abraço com os pulsos cerrados, como se precisassem tanto da mão um do outro para viver, como de respirar. E era disto que se tratava. Amor incondicional, cravado de força, cravado de vontade. Tão essencial quanto água, quanto simples quedas, necessárias para aprender a melhor forma de dar cada passo. Gritavam e sorriam, desconhecedores do que os esperava, além daquela estrada infinda, coberta de alcatrão negro, da cor do céu que se lhes ia sobrepor daí a poucos minutos. Sentaram-se, sobre os menbros inferiores cansados, contraindo-se num abraço, semelhante àquele que as suas mãos antes faziam. Agora, haviam-se deixado. Mas com o intuito de fazer correr os braços sobre os ombros, para se poderem olhar bem de frente, escutando o silêncio, o melhor que os podia fazer compreender. Por diante, o céu tomava-se rosa, laranja, lilás. O sol, laranja ao fundo, ladeava o crepúsculo de velhas árvores, que lhes socorriam da aragem fria, que a pele quente ladeada pela do outro, não conseguia sentir. Os seus cinco sentidos, estavam fixados no ser que tinham em diante, certos da loucura que acabavam de fazer. Não lhe chamariam fugir. Fugir é para os fracos, e aquela união era a força. Sorriram. Continuamente, um para o outro, quase pressentindo, que os pensamentos ocultos pelo silêncio, debaixo de dois corações ligados, eram os mesmos, em concordância absoluta. Ele tirou-lhe a mão do ombro. Pousou-lhe os dedos sobre a pele fina e lisa das suas faces. A facilidade subtileza, com que ele tomara tal acto, não a incomodara. Ela sabia e confiava, no quanto se precisavam mutuamente, e nunca poria em causa, que aquela mão não voltasse ao devido lugar. Estavam sós. Loucos de riso, caídos numa gargalhada merecida. Eram artistas, génios, mágicos poucos, que conseguiram atingir o grau perfeito da confiança. Riram da vida. Fizeram troça dela, do quanto lhes trocou as voltas, sem que tivesse conseguido, mesmo suprema e superior a eles, separar aquelas duas mãos, não mais que pedaços de carne adjuntos. Fizeram o que ninguém fez. Ouviram-se por si só. Ouviram-se um ao outro. Ignoraram terceiros. Foram leais. Juraram confiança cumprida, e entregaram-se nas mãos de outro. Trairam mentiras, destruiram muros. Fizeram cair dúvidas, e seguiram, pela estrada fora. A missão estava cumprida. E hoje em dia, fizeram o que ninguém faz.
E em contrário deles, na sociedade que os rodeava e da qual quiseram sair, a confiança caiu. Caiu como caiu a ditadura, derrubada quase sileciosamente, sem sangue nem marcas, sobre o chão, para nunca mais se levantar. A única diferença, é que esta foi morta de forma discreta, sem que ninguém admitisse para consigo, que o lado humano se esvai cada vez mais e mais, aos olhos do século XXI, sob a futilidade dos demais.
E eles haviam conseguido. Eram os vencedores, e iam viver felizes para sempre. Com pena de todos aqueles que no meio de tanta vingança, nunca iriam poder sentar-se debaixo do crepúsculo, na estrada de alcatrão, bêbados de felicidade, diante do sol caindo.
Não iam trocar palavras. O suor que lhes percorria a face, dizia que já tinham corrido o suficiente. As mãos juntas sabiam nunca mais se largar. Agora, seguir em frente. Quem encontrou o braço que lhe faltava, já tem tudo o necessário.
Sorriu-lhe. Ele retibuiu, sem demoras. Estendeu-lhe a boca, desviou-lhe a franja, e beijou-lhe a testa suada, transpirada de sentido de missão cumprida, transpirada de saciedade, transpirada por um coração, que de nada mais precisava para respirar.
Haviam conseguido. Tomar as rédeas, e fazer-se de si próprios. Não precisaram de ninguém, para acabar felizes, sós, debaixo do sol caindo, sobre o horizonte fértil e pérfido, de quem o sabe ver com a vontade que ele merece. Bebiam da pele um do outro, tudo o que precisavam para sempre. Por fim, abraçaram-se; carne com carne, como se tivessem sido fundidos pela felicidade e gratidão, de quem conseguiu ser maior que as barreiras.
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