Sempre fiz por isso. De facto, sempre fiz por isso. Quanto mais não fosse, para me vingar da força ingrata, que me falhava em poucos momentos, que tinha de estar sempre lá, que não tinha falha admissível. De facto, naquele momento, não soubera como ir buscá-la. Limitava-me aos passos escassos, que conseguia marcar em volta da sala, deambuleando como sangue, demasiado cheio de álcool. Mas não. Ali havia outra droga, que me cobria a vista. Cobria-me a vista, e expremia-me a pele, comprimindo a força até ao mais íntimo do meu ser. Extorquia qualquer coragem ou alento ao coração doido, ao seu papel fracamente desempenhado. De facto, nada podia fazer. Gostava de poder aventar-me por uma porta e cair no passado, naquele dia naquela noite, sobre os teus braços, sobre os teus abraços. O teu colo certamente me animaria. Amizade indiscritível, amor inqualificável. Um caso à parte da possibilidade de qualquer relação meramente humana, demasiado especial para objecto de estudo. Então procurava consolo, naquela imagem remota e escondida, a um canto da cabeça, para lá do coração. Desenhava sobre os olhos, aquele corpo sentado diante de mim. Movendo-se calmamente, disposto sobre a filosofia de vida perfeita. Olhava para ele, como se fosse a última partícula de oxigénio disponível. Se o olhar tomasse forma fisíca, os meus olhos iam agarrá-lo todos os dias, quando propositadamente, seguia todos os sítios, todas as horas onde o podia encontrar, só para me alimentar, mais um bocadinho. E lá estavas tu. Na minha cabeça, naquela memória presente a que me acostumei. A pele morena, sobre uma aparência indiscritível, num momento claro em noite escura. Fora de facto perfeito, penso eu. Talvez mais, quem sabe. Limitava-me a continuar o meu trajecto curvilíneo, em torno da mesa de centro, cansada e tonta de me ver às voltas. E agora, era o meu estômago. Pulava cá dentro, ansioso por mostrar as suas capacidades de exteriorizar. Um pouco mais acima, não muito longe, pulava o meu coração, desejoso de ser mosca, para poder ficar todos os dias deitado ao teu lado, a ver te dormir. Dispus o quanto pude sobre a mesa. Desarrumei os armários, abri todas as portas. O caos, dentro do caos. Corri ao bar. Primeira prateleira. Bebida, não identificada. Abri a garrafa, e bebi como se fosse água. De facto, álcool nunca fora o meu forte. Mas até com ele, sempre fora assim. Eram ambos propulsores da dor nos meus pontos fracos, e de alguma forma, tinha de me habituar. O isqueiro e a garrafa, acabaram por ficar em cima da mesa. Pus o masso no bolso, e guardei as memórias no bolso do casaco. Era hora, de esquecer por hoje. Afinal, o álcool devia estar a fazer efeito. Queria esperar por ti, mas não sabia como fazê-lo. Queria trazer-te, sem saber como faria. Mesmo assim, ainda sentia a saudade, das mãos dadas debaixo do frio. Tinha saudades das suas palmas quentes e macias, tocando todos os pontos necessários ao bem estar total, bem melhor do que qualquer sessão de acupuntura. Era saudade daquela cena, das mãos dadas com força, apertadas voluntariamente, coladas e firmes, como bases complementares que somos. E fiz tanta e tanta coisa. E vou continuar a fazer. Pode não ser nada. Mas nada de ti chega. Resta-me o álcool. Vou esperar pela coragem, pela força ingrata que fugiu. Espero que volte aquela que antes se abateu, e permaneço paciente, na sala sobre a mesa de centro. Dou-te a força que precisares. Em troca de um dia voltar a teu algo teu, mesmo que não mais que uma palma da mão.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Sempre fiz por isso. De facto, sempre fiz por isso. Quanto mais não fosse, para me vingar da força ingrata, que me falhava em poucos momentos, que tinha de estar sempre lá, que não tinha falha admissível. De facto, naquele momento, não soubera como ir buscá-la. Limitava-me aos passos escassos, que conseguia marcar em volta da sala, deambuleando como sangue, demasiado cheio de álcool. Mas não. Ali havia outra droga, que me cobria a vista. Cobria-me a vista, e expremia-me a pele, comprimindo a força até ao mais íntimo do meu ser. Extorquia qualquer coragem ou alento ao coração doido, ao seu papel fracamente desempenhado. De facto, nada podia fazer. Gostava de poder aventar-me por uma porta e cair no passado, naquele dia naquela noite, sobre os teus braços, sobre os teus abraços. O teu colo certamente me animaria. Amizade indiscritível, amor inqualificável. Um caso à parte da possibilidade de qualquer relação meramente humana, demasiado especial para objecto de estudo. Então procurava consolo, naquela imagem remota e escondida, a um canto da cabeça, para lá do coração. Desenhava sobre os olhos, aquele corpo sentado diante de mim. Movendo-se calmamente, disposto sobre a filosofia de vida perfeita. Olhava para ele, como se fosse a última partícula de oxigénio disponível. Se o olhar tomasse forma fisíca, os meus olhos iam agarrá-lo todos os dias, quando propositadamente, seguia todos os sítios, todas as horas onde o podia encontrar, só para me alimentar, mais um bocadinho. E lá estavas tu. Na minha cabeça, naquela memória presente a que me acostumei. A pele morena, sobre uma aparência indiscritível, num momento claro em noite escura. Fora de facto perfeito, penso eu. Talvez mais, quem sabe. Limitava-me a continuar o meu trajecto curvilíneo, em torno da mesa de centro, cansada e tonta de me ver às voltas. E agora, era o meu estômago. Pulava cá dentro, ansioso por mostrar as suas capacidades de exteriorizar. Um pouco mais acima, não muito longe, pulava o meu coração, desejoso de ser mosca, para poder ficar todos os dias deitado ao teu lado, a ver te dormir. Dispus o quanto pude sobre a mesa. Desarrumei os armários, abri todas as portas. O caos, dentro do caos. Corri ao bar. Primeira prateleira. Bebida, não identificada. Abri a garrafa, e bebi como se fosse água. De facto, álcool nunca fora o meu forte. Mas até com ele, sempre fora assim. Eram ambos propulsores da dor nos meus pontos fracos, e de alguma forma, tinha de me habituar. O isqueiro e a garrafa, acabaram por ficar em cima da mesa. Pus o masso no bolso, e guardei as memórias no bolso do casaco. Era hora, de esquecer por hoje. Afinal, o álcool devia estar a fazer efeito. Queria esperar por ti, mas não sabia como fazê-lo. Queria trazer-te, sem saber como faria. Mesmo assim, ainda sentia a saudade, das mãos dadas debaixo do frio. Tinha saudades das suas palmas quentes e macias, tocando todos os pontos necessários ao bem estar total, bem melhor do que qualquer sessão de acupuntura. Era saudade daquela cena, das mãos dadas com força, apertadas voluntariamente, coladas e firmes, como bases complementares que somos. E fiz tanta e tanta coisa. E vou continuar a fazer. Pode não ser nada. Mas nada de ti chega. Resta-me o álcool. Vou esperar pela coragem, pela força ingrata que fugiu. Espero que volte aquela que antes se abateu, e permaneço paciente, na sala sobre a mesa de centro. Dou-te a força que precisares. Em troca de um dia voltar a teu algo teu, mesmo que não mais que uma palma da mão.

2 comentários:
Perfeito *.*
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