Não sentia as mãos. Não as sentia do frio que estava. Tinha sono, estava cansada, e só queria ir para casa. Queria ir dormir. Mas não queria ir. Ir e deixá-lo ali. Deixá-lo ali, e saber que talvez só fosse vê-lo a menos de 5 cm de mim no próximo sábado. Só pensava em quando voltava a vê-lo. Em ir, ou ficar. Só pensava nas palavras todas que me disse nos últimos tempos, e só ponderava acerca disso. Trago a cabeça cheia cheia, a ponto de ficar vazia, vazia para o resto, incapaz de pensar. Sentava-me, e cruzava as pernas. Cruzava-as, e baixava a cabeça, na esperança de não adormecer. E porquê? Para poder levantá-la de novo, e ver quem estava à minha frente. Começava a achar irritante a forma como interferia com toda e qualquer vontade e se sobrepunha a tudo e todos. Achava que ia desintegrar com tanto frio, mas enganei-me. Mais uma brincadeira, um empurrão, um sorriso. Era o suficiente para descongelar, para deixar de sentir o frio, para os pés levantarem de novo do chão. E é tão bom, de cada vez que sinto que vou congelar, sentir as suas pernas enroladas nas minhas, e ter-lhe os braços em volta. Sentir o cheiro do seu pescoço, e a respiração a arrepiar-me a pele. E o mundo podia ter parado, para ficar ali a abraçá-lo para sempre. A ver como sabe de cor, em cada frase que diz, em cada gesto que faz, todas as brincadeiras das últimas semanas quando as repete, e no fim diz que fez de propósito. Eu não queria abalar. Como podia estar cansada? Nunca me ia cansar dele. Carne com carne, e eu com sono. Parece que ainda aqui está, sentado e encostado, quente e frio. Parece que não o vejo há um ano de saudades, mas parece que esteve agora aqui, e que ainda o consigo sentir. Não há explicação para algumas coisas pois não? E o ar, pesa como ele na mesma. E sinto as mesmas saudades desde o primeiro segundo em que virei as costas, e sinto o mesmo cheiro, desde há 8 semanas. Conto todos os sábados, cada sábado, cada dia até sábado. Parece que cada um deles, foi há tanto tanto tempo, parece que as semanas correm até ao dia em que volta. Parece que me tirou a noção do tempo, e tenho saudades saudades saudades todos os dias. Sente-se aquela enorme falta, da maior peça, a gigante do teu coração. Um braço por cima, um ombro para me encostar. E nunca me soube tão bem, encostar-me a alguém, e ficar a ouvir muitas palavras, baixinho, a dirigirem-se a mim, só a mim, a 2, 3 cm de distância da minha boca, a meio palmo dos meus ouvidos. E nunca me concentrei tanto nas frases de alguém, como faço com as suas. É que é de facto preciso muita concentração, para não ficar derretida só com a sua voz, para não desmaiar com o hálito fresco, ou os lábios a roçar me no queixo e no pescoço, e conseguir dar uma resposta de jeito, a quem fala para mim com tanto carinho e atenção. É que é sempre sempre fofo, e até parece mentira. Já vos aconteceu, chegarem ao pé de alguém, que vos toca na barriga e ela torce como se fosse lavar a quente? Ou haver um perfume, que vos fica no peito, e uma voz que não vos sai da cabeça? Haver alguém, que é tão especial, tão tu. E como podia eu, deixar-me vencer pelo cansaço, e ir? Levantei-me, e enfim, não é preciso medo. Não acaba aqui. E vai haver muito mais, e muito melhor para nós. Fui mesmo. "Adeus meu puto." E são os adeus que custam mais. Enfim. Tudo o que fica, dura e dura. Ficava ali, mas ia comigo. Como vem, há semanas e semanas, já nem sei, se na cabeça se no coração. Custa, deixá-lo ali, e não vê-lo o resto do fim-de-semana. Mas às vezes é preciso manter uma certa distancia para (tentar) pensar. Então fui. Ia vê-lo assim que adormecesse, por isso achei que não tinha grande mal. Fui realmente embora, e o cansaço venceu. Mas venceu porque eu quis, porque ia dormir com ele.
Não importa. Vou sonhar contigo de qualquer forma.

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