sábado, 25 de dezembro de 2010


Tentou ignorá-lo. Refugiar-se no mais íntimo do seu pensamento, para não pensar no corpo que se aproximava, passo a passo do seu. Os ténis chiavam, sobre o chão de lata molhada, e a chuva caía-lhe pela cara, como pingava das beiras. Ainda assim, sempre tivera um coração com grandes capacidades sensitivas. Conseguia ouvir o chiar dos seus sapatos, ouvi-lo e vê-lo em qualquer lado mesmo sem olhar, mesmo sem ouvir, melhor que tudo, melhor que ninguém. Então, sabia que era ele. Um vulto maior que ela, mas de uma altura bem doce, como tudo o que a ele se assemelhava ou apresentava, chegava junto, cada vez mais junto da sua trajéctória, no sentido inverso do movimento. Dois braços, correram-lhe pelo pescoço. Sentiu o calor da sua pele causar-lhe uma sensação fria ao longo da espinha, como se fosse uma faca espetada, mais gélida do que qualquer gota de chuva que lhe caíra em cima ao longo da noite. Os braços dispensos sobre o seu pescoço, pareciam lâminas que haviam cortado o tempo, em pedaçinhos muito pequenos, para que ele passasse mais devagar. Era como se estivesse a ver o mundo às tiras, a vê-lo passar através do quão consciente o seu coração se apresentava quando ele lhe tocava: 0%. Sentiu-se apertada, sobre os seus braços quentes e macios, debaixo das suas mãos grandes, e dos seus pulsos firmes, sem ser capaz de reagir, ou de perceber ao certo, em que ponto da pele lhe tocava, ou se lhe apertava realmente. Estava de facto, abraçada a ele há muito, e senti-lo ali, era só uma demonstração física, de um abraço que lhe deu pelo corpo todo, há já algum tempo. Agora, não eram só os seus destinos que estavam abraçados. Naquele momento em que os segundos pararam, e os ponteiros pareciam avançar em contrário, conseguiu ter um laivaço de consciencia, e reconher que estava a abraçá-la, quando lhe chegou os lábios junto do pescoço. Não sentiu os habituais arrepios, não sentiu mais facas, só sentiu o hálito quente tocar-lhe a pele e eriçar-lhe os poros, que ainda assim estavam impávidos de o sentir. Simplesmente, não sentia. Estava bloqueada, martirizada, que é o mesmo que apaixonada em português, diria. Sentiu então, o quente abandonar-lhe os ouvidos. Ele chegara os lábios para longe, e percorria-lhe agora o cabelo com a boca. Acabou por sentir, por entre descargas de consciência voluntaria, um beijo na testa. Então, apertou-o. Um espasmo, talvez. Não queria deixá-lo ir, e não sabia há quanto tempo fora o primeiro segundo de tempo cortado pela pele quente, em cima do corpo cravado por chuva fria. Ficou então triste. Não era aquilo que queria. O lado racional, ligou-se de novo. Mind's is on. Largou-o, quase tão rapidamente quanto a luz corre. Vá, sem exageros. Largou-o, abriu as mãos e largou-o, a uma velocidade supersónica. Inclinou-se para a frente, e debruçou-se sobre o caminho que tinha em diante, e que antes fazia. Quantos segundos haviam passado? Onde estava? Sabia apenas, o que tinha feito até ali. Desde o início dos cortes, até ao fim, perdera a noção do tempo, do espaço. Estava com ele, só, e isso só por si, era quase como um lugar muito à parte, onde o tempo não existe, e o mundo se celebra aos cortes, mais lento do que caracóis em corrida. Então desculpa-me, mas vai ter de ser. Largou-o, e seguiu. Ignorando qualquer toque, qualquer silêncio que lhe tenha colocado nos beijos perto dos ouvidos. Avançou, e nem olhou para trás. Era assim que achava que devia fazer, para receber apenas amor em pequenas doses, e não acabar por ter choques de falta do mesmo, e conseguir não sentir também, sempre que os abraços lhe faltassem. Ao menos, resolucionara as suas dúvidas. Já sabia que gostava dele. É sempre assim, esta a resposta, quando consegues ouvir e ver alguém, sem precisar de o ver, sem precisar de o ouvir. Apenas por sentir, que está aqui. Mesmo que não esteja.

É válido que trates bem de mim, ok?

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