Sim, já tinha posto um fim. Um fim há muito tempo, não tanto, algum. O suficiente para ter sentido as coisas esmorecerem dentro de mim, dentro de ti também. Amizade, tudo o resto, debaixo de um móvel, para trás. Correr em frente sem virar as costas, passar as páginas sem menos nem mais, correr contra a questão, agarrá-la, esmagá-la, e deixá-la enrolada num troço do caminho onde não mais, queria voltar. Deixei-te lá. O que mais amamos na vida, o nosso amor pequenino e miúdo, esmagado como se fosse papel. Olhar para ele, e vê-lo ali assim, caído, murcho, doía muito. Doía por saber que tinha sido o nosso melhor, porque o nosso maior embrulhado, feito em pequeno. Doía assim. Como cera quente na pele, que nos deixa lágrimas nos olhos, e que nos leva parte de nós. É má comparação, mas aplica-se às lágrimas miudinhas, que me cairam pelo coração quando me disseram aquilo. Não, eu já não te amo daquela forma. Já consigo viver sem ti, e não chorar quando nos encontramos. Tocar-te no ombro como se fosses um desconhecido, e gritar que estou triste, sem ser por ti. Já consigo, sim. Chorar por outra pessoa, que não tu. Sonhar acordada a pensar noutro rosto que não teu, e encontrar-me em olhos castanhos, se bem que os teus azuis são bem mais bonitos. Sinto-me feliz, nesses momentos. Quando olho para as coisas como se fosse uma criança com um saco de doces, e vejo que consegui passar mais uma etapa sem ti. É bom, acordar de manhã, pular da cama, triste com alguma coisa, e saber que não és mais tu. Que é outra vulgaridade qualquer, que seja melhor ou não, não és tu. Já não há aquelas lágrimas quase de sangue, aquelas suplicas sem fim para que voltes. Já não te escrevo sem fim, já não te amo mais que a qualquer pessoa neste mundo, como antes fiz. Já consigo sair à rua, e enfrentar-te, passar por ti, e ignorar-te, tratar-te como um imbecil se for preciso. Consigo ser tua amiga se precisares de mim, mais maduro, daqui a uns anos talvez. Já consigo achar que posso viver sem ti, e já consigo não respirar ódio por mim mesma, por ter deixado que fosses embora. A culpa não foi minha sabes? Tudo poderia ter sido diferente. O teu orgulho, bate montanhas, muralhas, países inteiros de gente que te digam que estás a fazer algo mal. És tu e tu próprio, com questões e condições à parte, mas se me amasses como te amei, tenho a certeza que nunca me tinhas deixado ali. Nunca terias usado as palavras que usaste, e nunca terias sido demasiado bom comigo. Nunca terias obrigado de mim, a acabar com muitas partes para te agradar, nunca me terias pedido, tudo aquilo que pediste, quanto relembraste que eu existia. Dói muito, ver te ir assim nos braços de alguém. Parece que me dão uma facadinha no passado, que se vai propagar cada vez com maior intensidade, até tocar no meu presente, e me atingir o peito de maneira brutal. Parece que é uma dor miudinha, que me corre as veias devagar, até ser processada no unico sitio onde te encontraste, o coração. À cabeça, não chegou nada. Não chega quase nada. É no peito que dói. Porque foste o meu único amor louco e sem preço, desproporcional ao meu tamanho pequenino. Foste o melhor da minha vida. Foste a maior cicatriz, a maior marca de sangue, o maior tudo. Foste a vacina contra muitos erros, foste o ensinamento para a vida, do qual mais levo e aprendi. Foste aquilo que muita gente não teve, e que lamento. Algo que lhes mudasse a vida em 180º graus, e que lhes fizesse dar valor, a todas as pessoas que gostam de alguém, e que têm um par de cornos novo todas as semanas. Tu foste assim. A pior coisa que me aconteceu, aquilo que me deitou quase por terra, aquilo que acabou comigo, pelo menos literalmente com 3/4 de mim. Amei-te mais que a todas as pessoas que passaram pela minha vida, a par com a minha mãe. Foste o sangue que me correu nas veias, e juro, que nunca mais vou gostar de alguém assim. Nunca mais, por mais que ame, vou sentir aquela cena, que sentia quando estava contigo. Como quando me ajudavas a sentar, lembras-te? Aposto que te lembras. Que no meio dessa cabeça orgulhosa e casmurra, há aí um fundo de coração, muito pequenino tu sabes, que te lembra de que já estiveste aqui. Espero que encontres alguém, que goste tanto de ti quanto eu gostei. De uma forma ou de outra, vou amar-te sempre, meu pequeno parvo. Tenho pena, que tenha acabado assim, por mentiras, o maior dos amores que já vi. O mais louco, o que mais pessoas magoou à nossa volta. O que mais amizades destruiu, por ser tão grande, e indestrutível ao tempo. O amor, que ainda hoje tem repercussões enormes nas nossas vidas, o amor, que gostava que tivesses compreendido tanto quanto eu. Talvez daqui a uns anos, te lembres do quanto te amei. Ainda hoje digo isto, da mesma forma; os pés cruzados e as mãos sobre o teclado, a cabeça baixa e as lágrimas a escorrer-me pela cara a baixo. Não tantas quanto antes, mas a verdade é a mesma. Só espero que sejas feliz. Muito feliz. Que agarres as coisas desta vez, e que cresças. Que gostes de alguém como eu gostei de ti, e que sorrias todos os dias, porque isso, já faz parte de mim feliz. A grande parte que levaste, e que não me arrependo de ter deixado ficar para trás.
Vais sempre, para sempre Pedro, o homem da minha vida.
Amo-te parvo.

1 comentário:
Anda uma pessoa a esforçar-se para não desatar para aqui a gritar e a chorar e depois vêm esta gaja e estraga-me tudo, metes-me com lágrimas tá? Eu, sim, eu, já sei que é inédito, parabéns, até estou com um aperto no coração!
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