Às vezes apetece-me chorar. Chorar assim porque sim. Porque te sinto longe, mesmo que estejas aqui ao lado. Porque só haveria razões para não chorar, se soubesse que iríamos ficar abraçados para todo o sempre, sem lugar, nem tempo, nem fim. Chorar sincero, chorar porque às vezes não aguento mais uns metros de distância, quanto mais uns quilómetros. E é a quilómetros que estamos sempre. Às vezes, estás aqui ao lado, e é como se estivesses noutro mundo. Sinto-te noutra dimensão distante, que não a nossa. E às vezes, aquelas que eu gosto, estamos na mesma, sim. Aquela em que mesmo que estejas a quilómetros de distância, consigo fazer cumprir a minha missão. Agarrar-te no coração, e tomar conta dele. Tocar-lhe, e empurrar as lágrimas que prendes todos os dias cá para fora. Empurrá-laspara que chores, e que faças cair, tudo aquilo que te magoa, ou tudo aquilo de que tens saudades. Para te fazer sentir bem, para aliviar o peso do coração, para ser feliz. Feliz, como voluntária, como funcionária exímia de limpeza do teu coração, para te tirar a mágoa das veias, para te ver falar, para sentir que consegues ser forte, que só sou feliz se o fores. Chorar só. É o que me apetece agora, porque tenho saudades tuas. Saudades de algo que me mora dentro do peito, mas que só se completa quando toco dentro do teu. Agora apetece-me chorar. Sim, como quando falávamos até tarde. Como em todas aquelas vezes, em que olhavas para mim com a cabeça sobre as pernas, lembras-te? Quando eu descansava o queixo sobre os joelhos, para não me veres as lágrimas cair, e tu ficavas sem saber o que fazer. Quando eu coçava os olhos com as calças, debruçada sobre a minha própria mágoa e saudade aguda, e tu não sabias como pôr os braços por cima de mim e abraçar-me até ao fim da noite. Sentia-te tremer a uma distância considerável, bem diferente no coração, bem diferente na realidade. Tinhas medo. Medo de mim. Medo de me tocar, de me magoar, não por mim. Mas porque eu puxo os sentimentos para fora, e tu empurra-los para dentro. Medo, porque sou a tua antítese. Porque te obrigo a sentir, a decidir, e foi esse o meu objectivo desde o início. Não ser mais uma das que te dão horas divertidas, a fazer sabe-se lá quê. Quis ser sempre mais que isso, e tu sabes o quanto sou ambiciosa. Quis sempre fazer com que nas nossas conversas, nos nossos dias, nos nossos momentos juntos, tu fosses quem és, no teu expoente máximo. Que conseguisses ser, o excelente coração que a minha perspicácia detectou logo inicialmente. O coração que ninguém vê, e que todos interpretam mal. Ok, posso estar cega de amor, e não te ver bem. Podes não ser tão perfeito quanto te faço, mas tens um coração enorme, tu sabes. É enorme, e enquanto não admitires, vou ter de ser eu a tomar conta dele. Porque é esse o meu dever. Devemos tomar conta de quem amamos, nas palminhas das mãos para não se partir. Devemos cuidar, porque quem ama cuida. E é quando dizem esta frase no meio de conversas, que percebo que te amo de verdade. Porque o sinto, porque sei que sim, e porque cuido de ti, como não cuido de mim, nem cuido de ninguém. Porque tomo conta de ti com tudo o que te posso dar, porque não dou até onde não deixas. E agora apetece-me chorar. Contigo a olhar para mim, com o braço aqui por cima. Ou mesmo se não o puseres, como em todos os dias em que te faltou a coragem, que sintas ao menos o que eu sinto. Que absorvas parte do que sofro, e desesperes com isso. Que percebas, que às vezes, é pelo sofrer que se vê o quanto se ama. Que aprendas, todos os sentimentos que sinto e escrevo. Que um dia, tenha um português infalível, que te permita dizer-me o que sentes em cada conversa, e que hoje sai a tanto custo. Uns dias melhores que outros, lá prefiro aqueles em que vem a verdade nas lágrimas. Aqueles em que sinto que partilhas o mais intimo de ti comigo. Em que sinto que as lágrimas são a prova física do quão bonito és por dentro, e a prova de que tinha razão. Precisas de ajuda, és perfeito, e ninguém pega nisso em ti. Pegam na tua pele morena, nos teus olhos bonitos, e acham-se felizes porque andam com um rapaz giro. Mas tu és muito mais que um rapaz giro. Muito mais que um cabelo fixe, e um corpo invejável. Tu és tu. Um coração enorme, muito maior do que o das pessoas com quem te dás em muitas vezes. Sabes, eu estou aqui. Brevemente, vou puxar pelas tuas lágrimas novamente, para te ver sorrir depois. Para sentir que te sou util, que cuido de ti, e provar a mim própria, o quanto é bom sentir isto por alguém. Um sentimento que nunca nos deixa sozinhos, por mais sós que nos sintamos. Porque nos últimos muitos meses, nunca me sentir realmente vazia. Nunca me senti realmente só, nem realmente infeliz. Às vezes, as coisas são tão grandes, que chega uma pequena para se pagar todo o bem que se faz. Por isso dá-me uma lágrima tua, ou dá-me um sorriso, e eu sei que gostas realmente de mim. Por isso, diz-me outra vez o quanto sou importante para ti. Por isso agora deixa-me chorar, e depois deixa-me levar-te a fazê-lo também. Deixa-me mais isto. Deixa-me recomeçar por aqui. Deixa-me compensar-te pelo tempo em falta que te fiz, que fiz a nós, e ensinar-te mais uma coisa. Um dia, ainda vou provar-te, que são os fortes quem chora, para depois conseguir levantar-se do chão.

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