Às vezes tememos aquilo que não conhecemos. Talvez seja o medo que passa por nós, para nos deixar um bocadinho de si à porta. Ultimamente, ele senta-se aqui no portado ao final da tarde. Acho que fica em telepatia comigo, que tento sintonizar-me na varanda, acerca de todos os nossos duais dilemas. Simultaneamente, talvez isto não tenha dado certo. Procuro sempre ignorar a sua presença, mas ela não me deixa de facto confortável. E agora? Chega a ser ignóbil da minha parte. Afinal de contas, estou aqui na varanda outra vez, como uma criança a fugir do medo à porta, que acredito ainda, não ter mãos ou polegares oponíveis capazes de abrir a minha fechadura bem trancada, selada pela chave do lado de dentro. Mas que moral tenho eu para falar, aqui sentada em cima de muro no terceiro andar, a tentar sintonizar as ideias quase tão estúpida quanto uma antena? Não é culpa nossa nunca. Achamos sempre que vai passar, e que preencher os dias com tralha, nos faz esquecer daquilo em que não deviamos pensar, e que no entanto não queremos esquecer. E isto aplica-se a tudo, para todas as idades e para toda, mas toda a gente. Então será só o ser humano um bem incompreendido que faz pequena parte de si próprio? É que dentro de mim com tanto medo, às vezes já quase não caibo eu, que tenho de ficar na varanda sozinha se me quiser encontrar nalguma coisa, nem que seja uma nuvem que ambos veríamos de forma diferente. Se para mim é uma ovelha, para ti vai ser uma girafa, e isso é um ponto assente. Acho que somos ambos um bocado opostos. Deve haver uma hipótese qualquer, ou uma lei da física, que um alguém qualquer com o dobro do teu Q.I. e do meu tenha criado, que justifique a nossa estupidez. E volto a conformar-me de novo, com as nuvens no céu, com formas não tão estúpidas quanto eu, que preciso de achar que sou uma antena para me sintonizar a mim própria. E continua a incomodar-me terrivelmente, o medo a bater-me à porta. Mas és tu que o mandas vir cá, ou ele já decorou o número da porta? Queria pedir-te um favor, e desta vez é pequenino. Podias parar de endereçar cartas para aqui? É que agora que mandaste aquele envelope inicial, propositado ou não, que não sei se partiu de mim ou de ti, não sou mais capa de abrir outros pacotes que se assemelhem a embrulhos. Agora o medo bate-me sempre na caixa do correio, desde o dia em que saltou para fora da caixinha que me mandaste fechada, naquele dia de primavera ao fim da tarde, quando eu ainda não era uma antena. Afinal de contas, nos desenhos animados da Disney, tudo aquilo que vem embrulhado num exterior bonito, vem sempre quase envenenado. Será que tu também tens mensagens preliminares? Não interessa, de qualquer forma. Se não temos as coisas, é porque não temos. Se as achamos que temos, é o medo de as perder que se levanta connosco todas as manhãs, e que nos senta todas as tardes no muro do 3º andar, à espera que alguma coisa caia do céu. Não sabemos o quê, mas ao menos que complete a falta que sentimos e desconhecemos ao mesmo tempo. Aquela que tu me deste no embrulho lembras-te? Por isso peço-te, ajuda-me. Não vale a pena viver na dúvida. Vou fartar-me da varanda, e mandar-te uma sms. Por isso agora vou lá a baixo, e já volto mais logo. Talvez com menos cara de antena, ou um pouco mais bonita. Se bem que não fui feita pela Disney nem morres envenenado se me morderes. Tenho várias vantagens, e ser mais forte depois desta mensagem, vai ser outra delas.
Como diz a publicidade, fique bem, não se conforme.

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