É bom às vezes. Cair na cama cansados, numa sensação demasiado complexa para explicar, mas demasiado simples para sentir. Cair só, nos braços dos lençóis frescos, os segundos onde mais gostamos de cair. Os outros, bem, os outros. Os outros estiveram na nossa pele, sobre os nossos mesmos braços, esta noite ou na noite passada, e já se cria um vácuo de saudade em cima dos poros. Então o que fazemos, é ignorá-lo. Procurar os lençóis frescos, e fechar-nos sobre nós próprios, com pensamentos bons.
Bom dia, então. É de manhã, e os lençóis continuam frescos. Os primeiros segundos são sempre difíceis. Abrir os olhos, encarar a luz, e sentir quase tudo pela primeira vez de novo. É como se começasse ali tudo, e então, o coração bate com força pela primeira vez nesse dia. Talvez seja esse som, que descarrega a adrenalina nas veias, e o cérebro lembra-se de algo que não consegue esquecer. He popped in your head, yes. A imagem chega não pelos olhos mas pelo miocárdio, e atinge-nos o cérebro uma vez mais. E é viver assim tudo, de novo. Os segundos seguintes, são as descargas de consciência. Porque é que acordei a sorrir? É aí que o tempo recua. Um segundo para trás, dois para trás, três para trás. Um sorriso, uma cara, uma pessoa, uma descarga nas veias, o coração a bater com força, a luz a incendiar-nos a entrar pela janela, e os olhos a abrir-se. Voltámos para trás em menos de 1 segundo na prática, e sabemos porque estamos a sorrir. É aí que nos lembramos, do sonho que tivémos nessa noite, em cima dos lençóis frescos. Qualquer que fosse o lugar, a companhia foi a mesma, e é a ela que somos fiéis, de dia e de noite. Mesmo quando não somos nós que mandamos, e é a inconsciente parte de nós, que nos remete para aquilo que realmente queremos. Então sorrimos de novo. Sabe tão bem dormir contigo. Abraçamos os nossos segundos braços. Os lençóis. Agarramo-los com força, fechamos os olhos, e queremos continuar o sonho. Voltar atrás de novo, abrir os olhos, ficar encandeados com a luz, sentir o coração bater, a descarga de adrenalina nas veias, uma imagem na cabeça, e tudo de novo pela primeira vez. Tudo a começar para mais um dia. Tudo para ver, que depois dos lençóis vens tu, que antes deles vens tu também, e que dentro deles, a primeira imagem é sempre a mesma. E todos os dias ao acordar, a nossa vida rebobina assim, com a memória viva daquilo que queremos. Aí, reconhecemos que não somos loucos, e já sabemos porque acordámos a sorrir.
É assim que me apaixonas, todas as manhãs.

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