Saí de casa com as lágrimas fechadas na mão. Na força com que contraía os músculos e as veias dilatavam, ou com que sentia os tendões arder debaixo da força que faziam. Sentia quase que não tinha perdido o mundo. O mundo é que me tinha perdido a mim. Tinha-me largado algures numa ponta do tempo que possui, dum lado ou do outro do jogo no qual ninguém pede para entrar. É quase como se quando nascemos os nossos dados estivessem lançados, e como se o que tivesse que ser tivesse muita força diz um todo. Mas não era por isso que doía menos. Que o céu estava menos negro, e conseguia eu sentir as gotas de chuva cravar-se frias na pele. Não podia sentir o frio, o negro em volta, quando nas mãos, levava um frio tão negro. Nas mãos, ia fechada uma força incrível. O poder da mágoa humana, move mundos. Atira-nos para fora do nosso, mas é capaz de derrubar o dos outros nesse grande sentimento chamado vingança. Naquele momento, o ódio podia até levar-me lá. Levar-me onde eu nunca me levaria, mas apenas andava até onde as pernas dessem. Não sabia onde ia, não sabia porque chovia, não sabia nem podia saber, se ainda iria voltar ao meu tabuleiro de jogo. A vida tinha-nos lançado a todos. Sobre um gesto de sorte, sobre uma dádiva, a de abrir os olhos e sentir. Saborear o vento e a água, sentir um grito fora ou dentro de nós, sentir que somos de carne, que estamos vivos. Mas deu-nos uma maldição. Mandou-nos o mundo cheio, de sentimentos que não deveriam existir. Mandou-nos a força da vingança, o tamanho do ódio, o calor da mágoa. Incrustrou-nos a maldade nas veias, e quando somos humanos, vivemos assim. Jogados no tabuleiro dos interesses, fartos dos jogos dos outros, cansados de ser retirados constantemente do caminho que queriamos seguir. E agora, era eu que fugia sem saber em que espaço ou tempo. Fugia para não ser má como tantos outros. Para não me deixar infundar na maldade, e ser tão negra quanto o céu em volta. Fugia, para não abrir as mãos, para repousar o calor do ódio nas veias, e depois porque não era suposto deixar que a força que a mágoa consegue ter, me saísse das mãos como um raio, e se tornasse em mais uma das maldições deste planeta. E não tinha sido eu que me tinha perdido. O mundo tinha-me perdido a mim, e tinha-se deixado ficar igual. Por mais força que uma pessoa tenha, concentrada no amor ou no ódio, a linha ténue entre ela e o mundo, ficaria sempre igual. Do lado de dentro ou fora de cada um de nós, o mundo é uma bola que gira, todos os dias, movida por forças físicas que conseguem ser mais pequenas que o tamanho que os ódios humanos conseguem tomar. E era isto que me fazia correr. Sentir as lágrimas em sangue, cair pela cara a baixo, como se fossem um grito silencioso e mortífero para toda a maldade que nos rodeia. Era quase como se as lágrimas, fossem o poder que mata, que dita a morte aos sentimentos que ninguém quer sentir. Então, que caíssem no chão. Que caíssem no alcatrão, difundidas na chuva, como toda a água que caía do céu. Que fosse o mundo a suportar a ponta de maldade que sentia no ódio, depois de me terem feito tanto mal. Agora, eu não tinha perdido o mundo, o mundo tinha-me perdido a mim. E ele que se encarregasse de carregar no alcatrão com o mal que me deu, nem que chorasse todas as lágrimas que o meu corpo pudesse suportar. Não tinha de carregar com os maus sentimentos só por ser humana. Não tinha de ser má, suficientemente mais do que devia porque não queria. E eu não ia vingar-me. Ia fechar assim, as mãos debaixo da chuva. Com os joelhos negros como estavam de cair, tão negros quando o céu, quanto a minha roupa, quanto o luto que a cor do céu fazia ao mundo, como se fosse aquela cor a forma de a vida de todos chorar fora deles, por ver que é gasta com tão maus sentimentos todos os dias. Não era justo para a vida, pertencer a esta raça. Ser injuriada e desgastada, para mal de umas em benefício de outras. Então, quando corremos fora do mundo, estamos a ser quase tão fortes quanto ela. Mas só quando fechamos as mãos sobre a chuva, compreendemos estas coisas. Compreendemos que o céu lá em cima, é negro nestes dias, porque ele de lá consegue ver tudo. Olhar cá para baixo, e ver quantos morrem e sofrem neste momento, enquanto as minhas mãos se fecham com a força de um raio. Enquanto o meu corpo percorre a rua como se fosse uma descarga eléctrica, que não sabe para onde se dirigir. E é por isso que ele fica negro. Num luto de ódio, de cor, em que mostra que negra é a cor daqueles que nascem todos os dias. Negros não porque o humano não é perfeito, mas porque por vezes, o humano consegue ser suficientemente mau. E aí, nem a força das veias dilatadas, dos tendões a arder e das lágrimas no alcatrão, debaixo das mãos fechadas com toda a força e raiva, conseguem ser então maiores do que a maldade que o ser humano lançou no mundo. Então não adianta correr, e paramos sobre o alcatrão cansados. Mais vale aguardar o dia em que será inventado um idioma novo, em que as pessoas não se falem com ódio nas mãos e raiva no corpo. Talvez um idioma de abraços, quando o céu ficar de novo azul e os meus braços conseguirem dar a volta ao mundo.

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