segunda-feira, 29 de agosto de 2011

É sempre aquela sensação de possessividade. De toma do controlo, do poder, da decisão. Naqueles momentos em que a raiva se sobrepõe à substância física, e cansa até colmatar qualquer pontada de parvoíce de outra pessoa. E deveria não tê-lo feito por isso, mas depois, cedeu um pouco. Só por cortesia (ou não). Um beijo, ao de leve, para que que não houvessem ondas na aura, não faria mal. E não era nada disso. Mas quem tentava a razão enganar?
Estendeu-lhe os braços por diante. Pensou ignorar tal investida, mas porque não fazer jus à vontade, e dizer que sim uma vez com a força? Então um beijo, só. Dar e fugir, para garantir que nada mais se ia passar. Todos devem ter direito ao seu momento de revolta, e aquele era dela. Não queria dizer não, mas não era justo afirmar sim, a quem não o merecia ouvir naquele momento. No entanto, se calhar, era só uma birra. Um exagero, pouco ortodoxo. Mas às vezes torna-se inacessível ao lado racional, acertar com certas parvoíces.
Então, depois do primeiro, veio e chegou mais perto. Sentiu que ia morrer de amor naquela hora. Era quase pirosa a forma como respirava, ou pseudo realizava qualquer actividade biológica, suspensa num momento em que até a rua em volta, parara para sentir a força de vontade ser traída pela atracção fisico/psicológica. Como pode uma pessoa exercer tamanha força sobre um músculo fechado algures no corpo humano? E então a partir daí, todos sabem que as coisas funcionam como um choque em cadeia. Atrás de cada um vem outro, e a partir daqui, já nenhum ser humano pode explicar qualquer reacção ocorrente pelo meio. Simplesmente, é assim. E por isso mesmo, sentia-se exasperada. Queria parar de se sentir viva apenas daquela forma, e estalar os dedos para a realidade. Mas nada. Continuava a deixar beijos cair, como peças de dominó antes encaixadas, sem conseguir parar nada com toda a força do corpo.
Porque era aquele cheiro. Embriagante. Aquele com que sonhava todas as noites, e que a apaixonava todos os dias antes de dormir. Aquele que por ser tão fraco e fresco, precisava de ser fortemente sentido para a fazer sentir-se realizada. Aquele, pelo qual lutava agora com o corpo, embriagante de novo. E ele emanava-o. Emanava-o, de cada poro da sua pele fresca, e cegava qualquer reacção oposta ao mesmo. Fazia-a sentir-se ser engolida por algo que o olfacto continuava a ter para lhe trazer, e só queria reviver vezes sem conta, intermitentemente, o estalar de temperaturas, aromas e sabores seguidos, na mesma fracção de segundos. E que parvoíce, era só um beijo. Mas era um beijo, como droga. Um beijo que a possui-a, que não se explica mas se sente. Um beijo daqueles, em que até o sabor e temperatura nos apaixonam, em que o quente longe dali se tornou frio demais, e em que o cheiro nos cega até ao último fechar de olhos, quando o bater das pestanas não mais for comum, e o adeus estiver para chegar. Era aquele, e era seu. Era quase alcoólico e injusto, viciante e exasperado, arrogante e doce em simultâneo. Era um outro adeus como o de todos os dias, mas todos os dias, o beijo de antes era amado mais um bocadinho. E naquele dia, mais que ontem e menos que amanhã certamente, adeus iria doer-lhe de novo. Mas não havia problema. As costas viram-se rapidamente. O cheiro embriagante seria sempre o mesmo. Iria para casa, e amanhã há mais. Mas não ia sozinha. A ressaca foi consigo. Essa que é o feel agonizante, de saber que não há noutro lugar que não ali, o cheiro embriagante que a faz respirar, quando até a rua pára para sentir.
Prefiro então falar na terceira pessoa; não me apeteceu admitir que já que o teu cheiro é embriagante,
quem me dera viver bêbada todo o resto da vida.

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