Há dias bons também. Aqueles em que não há nada que o ser humano comum se possa queixar, nem no mais profundo do seu ser. Aqueles dos quais nem as minhas permanentes queixas poderiam queixar-se. São dias destes, assim. Cheios de luz, e de calor, mesmo que não seja altura dele. Fora de nós, só há uma temperatura confortável, pessoas apressadas que conseguimos facilmente ignorar, e a luz do sol a beliscar-nos com delicadeza cada poro. Parece que depois, ela chega a qualquer lado de nós, que não sabemos explicar qual. Algures na dimensão de dentro, que possuímos mas no fundo não vemos. Não interessa como, mas é lá que chega a luz da boa disposição, e foi lá que o sol me beliscou.
Quando nada podia ficar melhor que o espírito, há algo que o torna melhor a ele. Parece que nestes dias bons, em que acreditamos que tudo corre bem, tudo corre pelo melhor. Talvez a sorte atraia a sorte, ou então, seja o sol que nos belisca fora de época, uma boa oportunidade de ver o bom que se esconde nos outros dias, em que temos mais sorte do que pensamos.
Depois de chegar, é aquela coisa. A tranquilidade das imagens que os olhos nos trazem, dão para preencher mil janelas do tamanho deste espaço em branco. É aquela satisfação miudinha, que nos preenche todos os espaços vazios, e nunca estivemos tão calmos quanto naquele segundo, porque temos tudo à nossa frente.
A silhueta permanece igualmente inconfundível de costas, recostada sobre a parede. Naquele momento até o sol que lhe belisca o cabelo, torna tudo muito mais simples. E involuntariamente, sorrimos para a sorte outra vez. Em poucos segundos, o que nos belisca não é sol mas carne. Os braços distendem-se rapidamente sobre os nossos ombros, e aquele beijinho na testa faz-nos sentir tanto em casa. São aquelas pontadas agudas de saciedade, que conhecemos tão bem depois de sentir novamente, mas que são tão grandes que antes disso não podemos lembrar direito. E depois, todas as características do corpo atingem o espaço. Sentimos tudo tão macio quanto aquele cabelo, tão claro quanto aquele momento, tão forte quanto aquele abraço. É naqueles segundos, que sabemos que não vai acabar. É aquela nova beliscadela de sol, e sabemos que estamos encandeados, e que a luz nos fechou os olhos, mas que se ao abri-los não acordámos então tudo é verdadeiro. E então, podemos agarrar de novo. Tocar, sentir, e estará lá, de novo para nós, tão certo quanto o sol nos dias em que tem vindo fora de tempo. Mas há uma diferença. Esta sorte, não veio fora de tempo. Segundo nos diz o espírito, veio mais que a tempo, e veio para durar todo o tempo que o espírito lhe conseguir dar. Depois disso, só temos uma enorme felicidade egoísta sobre o corpo. Já se trocam palavras normais, e já parece tão natural gostar quanto na vez antes. É como se cada pedaço de felicidade permanente, fosse difícil decorar em cada momento. Como se precisasse de aprender-se de novo, com ou sem o sol para nos ensinar. E os braços continuam ali em cima. Mais um beijo na testa, e não podemos sentir-nos mais em casa.
É aquela satisfação miudinha. Aquela sensação que nos preenche todos os espaços vazios. Que nos mostra que nunca estivemos tão calmos, porque temos tudo à nossa frente de novo.
Aquela felicidade tão egoísta, que por mais que o português me ajude, nunca vos poderei descrever.
amo-te joão*.

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