quinta-feira, 11 de novembro de 2010

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Peguei na folha completamente branca. Sem a sorte de verter uma única palavra. Na verdade, sentia-me tão vazia quanto aquela folha. Peguei num isqueiro, e deixei que a chama percorresse um dos seus cantos. Depois, parei o olhar na sua direcção. Era quase fascinante, ver a forma subtil e silenciosa, com que a chama laranja e azul, consumia o papel. Era incrivel a forma como ela, destronava a forma, daquilo que antes, estava apto a satisfazer a sede de palavras de alguém. Naquele caso a minha. A única réstia, que indicava o sucedido, era o aroma que pairava no ar. Aquele cheiro a queimado, que no fundo, não passava de um indicador, de que mais nada havia a fazer para inverter a situação. A chama tinha-lhe tirado a forma. Olhei para o que tinha acabado de fazer. Estarei a ficar louca? Talvez. Havia algo ali, que me soava a nós. Talvez fosse, a semelhança com a forma subtil como a folha foi consumida pela chama. Foi isto que aconteceu comigo. Realmente, ele consume-me até mais não, e já me tirou alguma da forma daquilo que antes fui. Será que vai ser ele a ditar o meu fim? Tal como a folha tinha feito ao papel. Senti as mãos trémulas. Podia mesmo acontecer. E realmente, a única coisa que podia restar como prova, era também o aroma no ar. O aroma a sangue, de quem amou com força, e foi deformado pelo corpo que o tomou. Tal como o papel fizera com a folha, tirando-lhe a capacidade de satisfazer a sede de palavras de alguém, eu não mais me sentia apta, para amar além de ti. Peguei na folha com cuidado. Melhor dizendo, peguei na cinza que dela restava. Guardei-a numa caixa, e tive medo uns anos mais tarde, não me lembrar do significado do que estava a fazer. Antes de a fechar, deixei um post-it pequeno, da cor dos seus olhos. Um post-it azul, trá-lo-ia sempre na voz. Peguei na caneta, e limitei-me a soltar meia dúzia de palavras. Antes de a fechar, li uma última vez o que tinha escrito. "Foi isto que ele me fez." E isso importava? Claro que não. Amava-o, e sabia disso. Pouco importa, a mágoa que me causou. O amor compensa. Fechei a caixa. Senti que aquela podia ser a nossa história. Talvez se aquela folha tivesse sentimentos, se pudesse ter apaixonado pela beleza da chama que a consumiu. Como aconteceu comigo.

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