terça-feira, 15 de junho de 2010

Consciencializar.




Os dias continuam cinza, tristes. O vento sopra com força, e arrasta-me permanentemente o cabelo para trás. As pedras da calçada por onde caminho, parecem tão revoltadas quanto eu. Estão gastas, e parecem cansadas de ser tão pisadas. Às vezes é assim que me sinto, pisada. Pisada por gente inútil, ou melhor, opositores de estados de espírito positivos. Não obstante estas assombrosas e de facto, reais comparações, o alcatrão escuro e humedecido pela chuva que apenas há pouco parou de cair, parece descrever parte da minha vida, das minhas derrotas. A falta de cor que me rodeia, mas principalmente, a falta de cor que assombra o meu estado de espírito, fazem com que identifique em cada coisa que vejo, parte daquilo que não quero lembrar. Por mais que fuja, parece que o pensamento me persegue, porque tem de perseguir. Se calhar é mesmo assim que tem de ser. O barulho dos carros não existe. É por isso que gosto de sair sozinha, nestes dias frios, húmidos, em que todos procuram o conforto dos seus quartos. Consigo sentir-me sozinha, sentir-me livre para discutir comigo própria, para entrar em guerra comigo e com a razão, sem que nada interfira. Incrível. Ninguém na rua. Todos em casa, a fazer certamente algo muito diferente do que eu estava a fazer, ali, sozinha na rua, àquela hora. O sol devia estar a esconder-se, deviam ser cerca de sete da tarde, mas eu não conseguia ter bem essa noção, e pouco me interessava. O céu carregado e escuro, apenas me permitia ver que de facto ainda havia uma escassa luminosidade, e de facto, embora tarde, ainda devia ser de dia. Percorri todas as ruas de que tive vontade. A minha cabeça estava muito longe dali, mas as minhas pernas, levavam-me, nem sei bem onde. Mais uma vez, elas deviam ir guiadas pelo coração, e levaram-me àquele muro. A brisa parecia cada vez mais fria. Sentia o coração gelar. O céu, não tinha a cor dos teus olhos, mas eu conseguia vê-los olhar para mim naquele sítio de novo. Era como se cada pedaço da imagem que os meus olhos me traziam daquele sítio, te trouxesse a ti. Eu sentia-te, tanto, tão vivo ali ao meu lado. O som do vento forte a bater-me nos ouvidos, parecia-me a tua voz, a pronunciar todas as frases que ali me disseste. O teu aroma vinha contido em cada grão de pó que estava naquele muro. Melhor, aquele muro, tinha a nossa imagem, nós dois juntos, em beijos e noites intermináveis, e era só essa a única imagem que eu passara a conseguir ver na minha cabeça. Eu e tu, ali, era a única imagem que os meus olhos conseguiam alcançar, debaixo daquele céu cinza que se abatia sobre o melhor lugar do mundo. Começou a chover. Mas a imagem não desvaneceu. Parecia que estava a ver um filme, numa tela em tamanho real. Estava em pé diante daquele muro, e estava a ver-nos a meio de um beijo. Deste-me a mão, destee-me um beijo, deste-me um abraço. E depois, parecia que não me querias largar de novo. É incrivel, como inconscientemente, consigo lembrar-me de coisas, que por mais que me esforce por relembrar de forma intencional não consigo. Sinto que me lembro de tudo, e sei que sei tudo de cor, mas no fundo, ainda sei mais, e há mais para saber do que penso e imagino em muitas das vezes. Tu és muito mais para mim do que eu penso, e isso torna-se muito assustador, acredita. Eu já tenho a perfeita noção, de que se tornou um hábito, um ritual, uma droga, ter-te em mim, todos os dias, de uma forma grotesca, mas parece que sempre que olho para dentro, me surpreendo, por ver que não consigo perceber como é que podes ser ainda mais do que a própria razão permite. Senti os lábios salgados. Sim, lágrimas, claramente. Mal podia senti-las escorrer na cara, com toda a chuva que as envolvia e me percorria a face, com a mesma força que o vento me arrastava o cabelo, e que aquela imagem forçada pelo inconsciente, me partia o coração em bocados, cortando-o em tiras cada vez mais finas, prestes a desfazer-se em mais dor, se é que era possível. Estes momentos em que espreito para dentro, e fico ali, só para nos ver juntos mais uma vez, são os mais intensos momentos de masuquismo que proporciono a mim mesma. Sentir toda aquela dor, como se fosse um alimento de que preciso mesmo, como se fosse uma droga, um juramento, faz-me tão mal, eu sei. Mas é quando injecto toda essa droga de novo, que realmente estou viva, porque no fundo, ver que tudo o que amo não passa de imagens, é a dor que me alimento de vez em quando, há bastantes meses. Parece que nesses momentos, sinto que mereço, que preciso de sofrer. Que preciso, que mereço porque sou a suposta culpada, julgada por mim própria, pela responsabilidade por todos os porquês cuja razão desconheço. Parece que procuro na dor uma resposta, um refúgio, e esse parece ser o ponto máximo em que te posso reencontrar. É por isso que nunca me importo, de me mutilar psicologicamente sempre mais um bocadinho. A chuva parou. Desconcentrei-me e a imagem desvancesceu. O consciente não podia trazer-te de volta, por isso desisti de me manter fixada no mesmo ponto do mapa. Desviei o olhar, e fitei-me. Estava completamente encharcada. A roupa parecia pesar toneladas com toda a água que me invadia o corpo, e que lhe invadia cada fibra. Já chega. Sabia que podia voltar ali para injectar mais do mesmo, sempre que precisasse. Sacudi o cabelo molhado. Agora, ele já não se deixava erguer pelo vento, com todo o seu (muito) peso em água que tinha impregnado. Já sentia o som do vento, apenas como comum tom de vento em nada ligado à tua voz, havia mais gente na rua, empenhando sombrinhas na mão, e provavelmente julgando-me louca, e de facto era apenas a minha revolta, que não me tinha permitido ver nada do que me rodeava, com todo o meu desejo em estar só (o que me leva a acreditar em parte, naquelas teorias do poder da mente sobre a matéria) e já conseguia ter a noção de quera noite, era tarde, e tinha de ir para casa, porque tu, bem, tu devias estar em casa na tua vida normal, e eu estava mais uma vez num dia de loucura. Regressara à realidade. Apressei-me a sair dali, antes que começasse a chover mais de novo, o que momentos antes, nada me importava. Parei diante das escadas. Precisava de ver de novo. Recuei meia-dúzia de passos. Olhei de novo para trás. Aquele muro, representa o que tivemos juntos. O melhor que tive na vida. Pronto. Tinha acabado ali (pelo menos naquele dia). Tenho de ir para casa. Ia sentir saudades ao virar das costas, aliás, como sempre sentia. Prometo que volto. Adeus.


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