Saía de casa com o sorriso mais feliz do mundo. Saía de casa, com a felicidade estampada no rosto, porque tinha o mundo na mão. Trazia-o nos punhos fechados, cerrando-os com quanta força tinha. Se não os fechasse bem, ele podia escapar-me por entre os dedos, e eu não queria de forma alguma, que aquela pequena bola planetária deixasse de estar comprimida na minha mão. Bem, deixando o sofrimento metafórico à parte, na mão só vai uma pedra. Deixando o sentido literal, sim, eu tenho o mundo na mão. Tinha. Tive. Naquelas semanas.
Deixava Borba como se não houvesse amanhã. Recebia mais uma mensagem, vista apenas como um tranquilizante. Eu sabia, eu tinha a certeza, e sentia-me feliz. Tu ias lá estar à minha espera.
Descia do autocarro. Olhava em volta. O ar parecia-me mais leve. Doce sabor da estabilidade. Caminhava depressa, não queria que ficasses à espera. Sabia bem, onde ficava o local combinado. Mas a saudade fazia-me fingir desorientada. "Não sei, achas que sim?" "Mas já cá estiveste fofinha!" "Não me lembro meu amor." Menti. Menti com quantos dentes tinha. Desculpa. Mas sabes? Não me arrependo nem um bocadinho. Faazia-o por amor. Um amor, muito especial. Fazia-o para passar mais tempo contigo. Fazia-o por bem. Por gostar de ti. Por bem, como tudo o resto que fiz por ti.
Procurava um ponto de encontro, para me vires buscar. Perto de mim, longe de ti. Um sítio onde pudesses vir, quanto mais longe melhor, algo de caminho demorado, para passarmos mais tempo juntos. Um sítio onde bem sabia, que virias a correr, para me vir buscar. Era a amizade perfeita. E era a correr que tu ias. Como foste sempre. Até um dia.
Sim apareceste. Sim, vinhas a correr. Sim, eu amo-te. Dois beijos. Abraços para mais tarde, mrs discreto. Passavas a mão pelo meu cabelo, e sorrias. Sorrias tanto, tão tu. O sorriso mais verdadeiro e envergonhado, a felicidade que alimentava a minha, aquele abraço amigo, que nunca me falhava.
Gostava de olhar para ti. De olhar para ti durante horas. Fazia-me sentir bem. Parecia que juntos éramos irredutíveis, que eras o coração perfeito, e que nem o mundo podia derrubar aquela amizade.
Abris-te a porta, e entrámos. Ias arranjar-te, como sempre. E eu espera. Esperava, com a maior satisfação. E podia esperar anos. Saber que virías, chegava-me. Eu sabia que virias. Nunca me irias falhar. Até ao dia.
Aquele sítio transpirava o teu odor. Podia sentir em tudo o que te pertence, o teu cheiro, a calma, o pacifismo, a organização e controlo que nos distinguia.
Amava-te como um irmão. Amava-te como um melhor amigo, amava-te com todas as forças, mais que a 99% das pessoas. Amei-te em semanas, mais rápido do que alguma vez achei possível. E hoje? Passaram meses desde que me viraste as costas. E eu ainda te amo. Amo aquela amizade, que alguém matou. Porque tu deixaste morrer.
Eu gostava realmente de ti, e sei de cor tudo o que me disseste. Sei todas as promessas que fizemos. Tenho o teu elástico no pulso, e aqui vai continuar. Até agora, e ao contrário de ti, não quebrei nenhuma das promessas. Mantive todas as mensagens que me enviaste no telémovel. Todas, as centenas delas. No fim, encarava as coisas, como se tudo o que restasse de uma grande amizade, fosse apenas um elástico no meu pulso, memórias das quaos me tentava livrar na cabeça, e uma caixa cheia de mensagens com enorme valor. Mensagens que nunca fui capaz de apagar. Mensagens, que ficaram pelo caminho, que chorei, no dia em que as perdi quando o meu telemóvel resolveu suicidar-se e deixar de funcionar. Para mim, tinha-se perdido grande parte do espólio mais valioso que o coração pode guardar.
Agora lembro-me de tudo, apenas. Nada que ainda viva, de longe. És um contacto que perdi, és um quase desconhecido, a quem apenas digo boa tarde, às vezes. Porque assim quiseste.
Saudades. Pronunciava isto com carinho, de hora em hora. Agora evoco-o uma vez por mês, quando o coração me lembra do amor que enterrei. Desliguei de ti. Desliguei de propósito, sem querer. Desliguei porque quis, contra vontade. Tenho saudades de ir contigo a qualquer lado. Tenho saudades de estar contigo no bar das piscinas. Tenho saudades de quando ia contigo comprar gomas ao São Paulo. Tenho saudades das mensagens, das conversas. Tenho saudades de ter ao meu lado, a ouvir-me e a apoiar-me. Uma mão incansável. Uma garantia de apoio, que poucos amigos dão hoje em dia. Amava-te com todos os teus defeitos, como um amigo, como um irmão. Às vezes preciso dos teus abraços, do teu conforto. E tu não estás cá. Sou só eu e a falta dos beijinhos na testa, dos segredos, das tardes a rir e a dizer parvoeiras.
Às vezes sento-me na varanda, para onde costumava ir, quando falávamos ao telefone ao fim da tarde. Mato saudades. Meia saudade, daquilo que já tivemos. Eu era realmente tua amiga, e queria sê-lo. Mas tu não quiseste assim. Então fico na varanda e o telefone não toca. Ou se toca, sei garantidamente, que não és tu. Fiquei a conhecer-te como a palma da mão. E como sabia que não ias embora naquela altura, sei também, que agora não ias voltar.
Às vezes, espero que voltes. Espero não ter a tentação de te ir buscar. Espero não pôr o orgulho de parte, e admitir-te que foste das melhores pessoas que tive do meu lado. Que chegaste, onde nem mais 4 ou 5 pessoas chegaram John. Foste das coisas que mais me custou perder no mundo. Eras como um irmão. Foste a prova, de que para amar alguém, não é preciso estar apaixonado. Eu amava-te, sem estar apaixonada, uma amiga, uma irmã. E talvez sim, algumas amizades, entre amigos, superem a paixão, entre namorados. Acredito piamente.
Amizade supera tudo. E eu amava-te como a um melhor amigo. Foste um irmão para mim. Mas não soubeste distinguir as coisas.
E agora, o nó apertado que construimos quebrou. Partiu, e nunca mais será igual. Resta um laço desapertado. Um bonito laço que guardo na mesinha de cabeceira. Metaforicamente, claro. Porque na verdade, e literalmente, mais real do que muita coisa que vês, ele ficou para sempre, guardado no coração.
Nessa noites, eu sabia que tudo estava bem. Nas seguintes, também. Até um dia. Aquela, em que me deixaste à porta do bar, um beijo na testa, e nunca mais foi igual.
Foi este o caminho que fizemos. Nem metade, do que caminho que fizemos juntos.
Sinto muito. Sinto mesmo. Amo-te.


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